segunda-feira, 9 de março de 2015

Literatura.

 A resenha que o diplomata Marcelo O. Dantas escreveu sobre o livro de Flavio Cafiero deve ter passado despercebida aos leitores do Yahoo. Literatura, hoje, é uma atividade exercida por excêntricos, algo exótico e cada vez mais alheio e distante daquilo que as estatísticas chamam de “brasileiro médio”. Uma categoria, o brasileiro médio, que nada tem a ver com outra categoria - dos “leitores”. Não se fabricam leitores em forno de pizza nem em estatísticas. Infelizmente não podemos dizer o mesmo dos “escritores brasileiros” -  que por sua vez nada tem a ver com a literatura brasileira, bom dizer.E quer queiram, quer não queiram, a literatura prescinde de leitores para existir.
Já dizia Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”. Tá difícil.
Marcelo O. Dantas foi um pouco além da protocolar chatice que caracteriza a resenha de um livro. Ele fez um breve diagnóstico da mediocridade que tomou conta do país, disse que “renunciamos ao debate informado e ao pensamento questionador”. Que dialogamos em platitudes, valendo-nos de “fórmulas pueris e artifícios de marketing”. Somou 1+1 e chegou a conclusão de que essa mediocridade é cara de quem?  O primeiro que disser “nossa literatura” ganha um Jabuti. Marcelo O. Dantas descobriu a pólvora.
Se ele tratou da literatura oficial brasileira, aquela que “representou” o Brasil na Feira de Frankfurt, e que agora vai desfilar em Paris às custas dos impostos que pagamos com tanto sacrifício, se ele falou da literatura que tomou de assalto o Estado, se o diplomata se referiu  a “literatura” que vive de cachecol e subsídios da lei Rouanet, concordo 100%.
Por outro lado, existe uma meia dúzia de excêntricos que - ainda - se ocupa de literatura de alta qualidade no Brasil.
Se eu for mencionar essa meia dúzia aqui, outra meia dúzia acolá vai estrebuchar de ódio e ressentimento. Portanto serei mais generoso, direi que existe uma dúzia de prosadores valiosos no Brasil. Uma dúzia mais um, vá lá.
O assunto é um campo minado. Acalmar nossos próprios egos e vaidades já é um problema, administrar o ego dos outros é um inferno. Bem, o que quero dizer é que fiquei incomodado com a resenha de Marcelo O. Dantas. E tenho muita vontade de recomendar alguns autores para que ele - pasmem - confirme seu diagnóstico.
São poucos diante de tantos espertalhões.  Poucos que não surfam  na mediocridade oficial e que não vivem às custas de subsídios do Estado, mas que fazem - ou deviam fazer - alguma diferença num país que, como nunca, carece de homens e livros.
Muito bem.  Tenho cá uma lista de uma dúzia de autores contemporâneos (mais um) talentosíssimos que procuram urgentemente leitores e críticos sérios para serem lidos.
Não vou me alongar. Pretendo falar apenas sobre um.  E vai ser por sorteio. No final do texto  indicarei o nome dos outros doze para que o diplomata Marcelo O. Dantas fique com a impressão de que meu sorteio é o que é: parcial e seletivo, igualzinho as queixas dele.

Treze papeizinhos, cada um com um nome. Muito bem, vamos voar minha gente!
Peguei!  Ah, deu mulher - a única entre os treze nomes!  O nome dela é Marcia Denser, anota aí diplomata.
A literatura de Marcia Denser traz consigo uma beleza corrompida e um triturador de almas que, para o desapontamento da garotada que Marcelo O. Dantas acusa de entulhar as livrarias com morbidez e cara feia, jamais vai morrer.  Márcia Denser, se me permitem um trocadilho com o estado de putrefação da literatura brasileira, é um encosto vivo.
Um íncubo que já não facilitava as coisas para homens e mulheres há mais de trinta anos, quando surgiu. Não sei se ela, hoje, é a mesma “Diana Caçadora” daquela época.   Mas posso garantir que Marcia Denser antecipou a mulher que, trinta anos depois, sucumbiu a si mesma. Independência, alma e feminismo sem afetação não são mercadorias que se acham nas gôndolas de iogurtes e desnatados. Urgente, urgentíssimo hoje, aqui e agora, ler e reler “Diana Caçadora” e “Tango Fantasma”*.
Marcia não deve nada ao sexo nem ao sobrenatural e dispensa os efeitos especiais relacionados a um e outro. Ela é um ET no mundo em que vivemos e, paradoxalmente, o melhor espelho – ao contrário do que Diana Marini/Márcia Denser proclamava/proclama – o reto não é um fim em si mesmo.
Por isso é profética, é perene.
O tempo nunca vai passar para Diana Marini, alter ego de Márcia. O que poderia ser uma tragédia é uma tragédia mesmo. Quem sucumbe nessa história - repito - é a mulher de hoje antecipada por Márcia Denser nos anos oitenta. Tive essa convicção outra noite, quando, num desses botecos metidos a besta da Vila Madalena, uma japinha se “fresqueou” pro meu lado.  Disse que “a fantasia” dela era ser puta de rua, dessas rampeiras, de “hotel barato”. Eu lembrei de “Diana Caçadora”  e, meio que distraído, talvez para homenagear Márcia Denser, saquei vinte reais do bolso e me candidatei a ser o primeiro freguês. A japinha (quase trinta anos depois do genial “se ama tira a roupa”, do conto “Tigresa” deste mesmo “Diana Caçadora”) não me encarou.
Um contrassenso?  Não, apenas a arte atropelando a vida - geralmente o que acontece é o contrário.  Marcia Denser, em suma, é a mulher além da mulher que pode “acabar fascinando Drácula em pessoa, sem dar pela coisa”.
Um dado. Conheci  escritora e obra depois de ter escrito os livros que ela poderia ter escrito, e compreendi (não obstante e a despeito da maldição Márcia/Diana) que, mais importante do que ter ou sofrer de influências – ainda que tardias e nos lugares errados –  é se livrar delas. Para tanto, creio que não dá para prescindir do confronto e não dá para prescindir da vida asquerosa e pedinte que insiste em prevalecer diante da morte. A literatura de Márcia Denser, sob este aspecto, antes de se insurgir contra as mediocridades  e babaquices generalizadas e a guerra iníqua dos sexos, antes disso e de qualquer analogia estéril, sempre tratará, a meu ver, de uma condenação dividida entre poucos. Os que realmente interessam e ficam, anotou aí diplomata?
Segue a lista com os outros doze prosadores contemporâneos em atividade ( creio que seria redundância incluir Carlos Heitor Cony, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca):
        1.  Reinaldo Moraes - “Pornopopéia”
        2.  Juliano Garcia Pessanha - “Certeza do Agora”
        3. Marcio Américo - “Meninos de Kichute”
        4. Nilo Oliveira - “Pornografia Pessoal de um Ilusionista Fracassado”
        5. Andre Sant’Anna- “Amor” e “Sexo”
      6. Furio Lonza - “Crossroads”
        7.  Sergio Sant’Anna- ” O Monstro”
        8.  Rubens Figueiredo - “Contos de Pedro”
        9. Bernardo Carvalho - “Nove Noites”
        10.  Sou obrigado a incluir meu nome na lista, seria muita falsa modéstia não fazê-lo, e o farei logo com três títulos - “O Azul do Filho Morto”, “Bangalô” e “Joana a contragosto”
        11. Jason Tércio - “O órfão da Tempestade” - o fato de Jason se manifestar “em biografias” ( nesse caso a biografia de Carlinhos Oliveira) não o desqualifica como excelente prosador.
        12.  Ricardo Lísias - embora tenha alguns títulos soníferos,  indico “Anna O. e outras novelas”
      * texto inspirado a partir da orelha que eu mesmo escrevi para de “Diana/Tango” de Marcia Denser (Ateliê editorial,2003)
REproduzido do site:
Fonte https://br.noticias.yahoo.com/blogs/marcelo-mirisola/uma-duzia-mais-um-183447272.html

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